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Graça Mello

deFEMder compõe série sobre Arautos do Evangelho

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A série “Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho” estreou na HBO envolta em polêmicas. Abordando denúncias de diversos tipos de abusos dentro da associação católica tradicionalista Arautos do Evangelho, a série chegou a ser censurada judicialmente e teve sua exibição assegurada pelo Supremo Tribunal Federal, em decisão do Ministro Flávio Dino.

Em três episódios, a produção aborda denúncias e relatos de abusos físicos, psicológicos e sexuais contra crianças e adolescentes no âmbito do Arautos do Evangelho. A organização, aprovada pela Igreja Católica em 2001, é definida por diversas fontes como personalista, ou seja, tem sua estrutura baseada em uma única pessoa. Há relatos de ex-integrantes, familiares, jornalistas, psicólogos e juristas envolvidos nos casos de maior repercussão envolvendo a organização. O grupo foi denunciado ao Vaticano por práticas que não condizem com as diretrizes da Igreja Católica e está sob tutela do Vaticano, em intervenção que não tem uma solução clara.

No documentário, são compilados relatos anônimos e identificados sobre o processo de recrutamento de jovens, promessas de formação educacional e religiosa e o afastamento progressivo de famílias, além de denúncias sobre práticas internas e a estrutura hierárquica da organização, tendo como ponto de maior impacto os desdobramentos investigativos após a morte de uma jovem nas dependências da instituição, um dos casos de maior repercussão sobre a organização.

Ao longo dos episódios, uma figura chama atenção. É a primeira voz veiculada na série, e permeia toda a descrição estrutural, conjuntural e de eventos ocorridos: Graça Mello, deFEMder. Tida como essencial para a condução das investigações, Graça dá um depoimento contundente sobre as denúncias recebidas e trabalhos investigativos. “É uma instituição que se rege pelo constrole das pessoas que estão lá de tal modo que há uma espécie de lavagem cerebral”, afirma Graça no documentário.

Enquanto integrante do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CONDEPE, Graça foi responsável pelo encaminhamento de um dossiê denunciando práticas de tortura, alienação parental, bullying, exploração de trabalho, violência psicológica, assédio sexual, estupro coletivo e outras condutas verificadas no âmbito da entidade ao Ministério Público, à OAB-SP, à Defensoria Pública, ao Observatório de Direitos Humanos da ALESP e outras autoridades no estado de São Paulo, para que houvessem esforços investigativos coordenados. O dossiê trata outras sérias violações de direitos humanos, como racismo institucional e negativa de acesso a garantias básicas como saúde e educação.

Com os esforços de Graça Mello pela publicidade institucional das denúncias, ações judiciais tiveram maior alcance e andamento, e seguem em curso a partir de esforços da Defensoria Pública; é um exemplo a ser seguido por outras pessoas no âmbito destes processos e de outros, principalmente quando direitos humanos de mulheres e meninas estão em jogo. A série “Escravos da Fé – Os Arautos do Evangelho” tem direção de Marcelo Canellas e direção geral de Cassia Dian. A produção executiva é de Nani Freitas e Allan Lico, pela Endemol Shine Brasil. Pela Warner Bros. Discovery, assinam Sergio Nakasone, Adriana Cechetti e Luciana Soligo.

Graça Mello é advogada, militante pelos direitos das mulheres e uma das fundadoras da hoje Comissão da Mulher Advogada da OAB-SP. Graça Mello tem atuação jurídica longeva na articulação política de movimentos sociais e na defesa das instituições democráticas ao lado do Deputado Federal José Mentor, uma das vítimas da pandemia de COVID-19. Durante a ditadura militar, da qual foi vítima, Graça ajudou a construir o CA 22 de Agosto, e formou grupos voluntários de assessoria jurídica a movimentos sociais da periferia de São Paulo, com apoio a diversas famílias que buscavam o direito à moradia, atendendo em salas de igrejas em São Paulo; foi pioneira em mobilização massiva para pressionar, pela primeira vez, a Prefeitura de São Paulo para a regularização de lotes urbanos. Permanece lutando pelo respeito básico aos direitos humanos em diversas instâncias do Poder Público, como o CONDEPE, e mobilizando instituições como a OAB-SP em torno de igualdade material de raça e gênero.

Créditos; Dylan Gayer/Behance

A carta de Graça Mello a Lula pela Ministra Negra JÁ

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São Paulo, 19 de novembro de 2025.

Excelentíssimo Senhor Presidente,
Cumprimento-o cordialmente e encerro formalidades por aqui. Meu nome é Maria das Graças Perera de Mello, mas você me conhece como Graça. Espero que permita a intimidade, pois somos companheiros de luta há um bom tempo. Sou advogada em São Paulo, onde milito pelo acesso à Justiça desde muito nova.
Em minha casa, a igualdade, a democracia e a justiça nunca foram ideais; eram o que meus pais e meus irmãos faziam por nós, para nós e entre nós, e o que entregavam à comunidade, todos os dias.
O meu repúdio pelas injustiças nasceu em mim quando a ditadura levou meu irmão, Antônio Expedito, também advogado; e foi ali que entendi o Direito como uma das maiores ferramentas de transformação da sociedade, e o medo dos poderosos de quem sabe usar esse instrumento.
Ajudei a construir o Centro Acadêmico 22 de Agosto e a firmar Clínicas de Direitos Humanos ao lado da Igreja Católica em São Paulo, facilitando o acesso à Justiça de comunidades periféricas.
Este é um projeto que me orgulha muito. Em salas cedidas pela Igreja, organizei grupos voluntários de assessoria jurídica a movimentos sociais da periferia de São Paulo, com apoio a diversas famílias que buscavam o direito à moradia. Consegui mobilizar milhares de pessoas para pressionar, pela primeira vez, a Prefeitura de São Paulo para a regularização de lotes urbanos, com sucesso.


Fiz isso ao lado da pessoa com quem posteriormente construiria minha vida, pautada na defesa dos direitos humanos e na tão sonhada democracia: José Mentor Guilherme de Melo Netto. Espero que se lembre dele: ele participou da criação do Partido dos Trabalhadores, organizando os movimentos sociais – estes, que levamos juntos à regularização de lotes – e prestando assessoria jurídica.
Mentor esteve a seu lado desde o início, e sempre exerceu suas funções legislativas tendo a igualdade, a justiça e a democracia não como ideais, mas como objetivos da República que vimos renascer e florescer. Ele sofreu as mesmas injustiças que você sofreu: teve o nome envolto em escândalos sem nenhum fundamento, foi perseguido politicamente e juridicamente. Mas nunca se abalou.
Enquanto Mentor se dedicava ao Poder Legislativo, desenvolvi minha carreira jurídica, e entendi que não há maneira de exercer qualquer carreira sem que se tenham vozes que compreendam as dificuldades particulares nesses exercícios e se pensem as soluções a partir das perspectivas destas dificuldades.
Na advocacia, não se compreendia o que era violação de prerrogativa de advogadas, porque não existiam advogadas nos Conselhos e Comissões que falassem sobre como as violações ocorriam, e pensassem as soluções para isso.
Assim, lutei para a criação da Comissão da Mulher Advogada em São Paulo, e para que esta fosse uma Comissão permanente; lutei por paridade de gênero nos Conselhos, e articulei para que outros órgãos, como a Defensoria Pública e o Ministério Público, procedessem da mesma forma.


Minha atuação hoje não é diferente daquela que tive quando iniciei a carreira, ao lado de Mentor. Ela continua pautada pela igualdade, que é um direito humano fundamental.
Por isso, integro a Rede Feminista de Juristas – deFEMde. E por isso, participo do grupo de trabalho que elaborou e apresentou a tese constante do Mandado de Segurança 40573/DF, o qual, certamente, é do seu conhecimento. Trago minha história para que você compreenda a importância desta ação e entenda também que o legado do PT está em jogo.
Conforme artigo assinado por Silvia Souza e Melina G. Fachin, as Juristas que subscreveram o mencionado MS Preventivo, o fizeram sim com muita “audácia e coragem”, mas sobretudo com conhecimento, estudo e pesquisa.
E assim agiram porque é preciso que o presidente da República conhecido por sua “coragem e audácia” rompa com o “modus operandi” de qualquer presidente deste país nas indicações que fazem para a composição da mais alta corte, o STF.
Certamente, com a quebra desse modo, você se tornará o primeiro presidente a tomar pra si uma atitude democrática e racional baseada na defesa dos direitos humanos e contra o racismo que estrutura nossa sociedade indicando uma mulher negra para o STF.


A criação do Partido dos Trabalhadores foi um divisor de águas em minha vida. Eu e Mentor embarcamos nessa jornada juntos, acreditando que este seria o partido que realmente consolidaria os ideais pelos quais demos nossas vidas.
Eu acredito que você ainda se lembre deste momento. E espero que a lembrança traga a clareza necessária para tomar esta decisão.
Se Mentor, que infelizmente teve a vida ceifada por um genocida que se recusou a comprar vacinas – dizendo que era “prerrogativa” dele decidir se faria isso ou não – estivesse aqui vendo uma campanha por real igualdade ter de apelar pela terceira vez, e ter que judicializar a questão, porque você, aquela pessoa que conhecemos em 1979, se recusa a reconhecer o direito das mulheres negras, ele estaria tão possesso e tão envergonhado quanto eu – até mais, eu diria.
Você tem a oportunidade de honrar a memória das pessoas que lutaram com você e que sempre acreditaram na sua visão para o Brasil, e fazer da igualdade uma realidade.
Você tem a oportunidade de se antecipar e indicar uma mulher negra, e se poupar do constrangimento de ver, numa sessão plenária televisionada para todo o Brasil, o Supremo te mandando respeitar o direito de mulheres. Sim, porque nós agravamos. E a questão irá para o plenário. Sugiro consultar o AGU.

Saudações democráticas e antirracistas de
Graça Mello