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misoginia

Com o retrocesso fascista, nem as santas têm paz

905 702 Rede Feminista de Juristas

Todas as mulheres merecem respeito. Inclusive aquela que para muitas pessoas é sagrada.

Nossa Senhora é essencial para pessoas católicas, espíritas, umbandistas e de outras ordens religiosas no Brasil inteiro.
Maria – Virgem Maria, Santa Maria, Nossa Senhora – Aparecida ou Nazaré – , filha de Joaquim e Ana, esposa de José e mãe de Jesus – é uma figura central do cristianismo; ela é venerada pelas igrejas Ortodoxa Oriental e Oriental, Católica, Anglicana, Metodista e Luterana. No islamismo, ela tem a posição mais alta entre todas as mulheres; ela também é reverenciada na Fé Bahá’í.
Religiões de matriz africana, como a umbanda, abraçam a figura de Nossa Senhora pelo sincretismo, pautando faceta importante do sagrado feminino. Nossa Senhora é símbolo de energia das Orixás e reconhecimento da universalidade de arquétipos ancestrais e de proteção. As águas unem Oxum e Nossa Senhora enquanto figuras de afeto, serenidade e resiliência. É no mês de outubro que o Brasil celebra Maria, com o Círio de Nazaré no Pará e com a Festa da Padroeira em São Paulo; as relações de brasileiros com essa figura feminina transcendem a religiosidade e se estendem à cultura, às artes, e a diversos setores da sociedade.

Apesar dessa relevância na sociedade brasileira, ela também é uma figura extremamente desrespeitada e violentada. Dos chutes desferidos à sua imagem pelo pastor na TV aos tumultos extremistas em seu santuário nas eleições de 2022, ela, a Nossa Senhora, não tem um minuto de paz. Vídeos de suas imagens destruídas a marteladas se acumulam nas redes sociais; seu altar é desrespeitado por quem acredita que mulheres, como ela, não deveriam ter voz. A misoginia e a violência de gênero são inegáveis quando observamos o que os chamados “homens de bem” e que se proclamam cristãos fazem com ela, Nossa Senhora, a Mãe de Deus.

Talvez se diga um exagero a defesa de uma figura religiosa durante o período eleitoral. Mas o tratamento dispensado a ela agora é o mesmo dispensado a todas as mulheres por um grupo bem específico e bem estridente em nossa sociedade; o que se observa com ela é a realidade de todas e todes nós, o que mostra por que precisamos criminalizar a misoginia. Saber que um candidato à presidência prometeu remover a padroeira do Brasil, o que se soma ao seu vídeo de campanha prometendo “decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo” causa revolta em todas as pessoas, mesmo naquelas que não professam fé nela, a Nossa Senhora. Ver que para “desmentir” a notícia – dentro de um jatinho, que não se sabe de quem é – ele sequer foi capaz de usar o nome dela, e que para impedir a análise dos fatos, ele está ativamente censurando todo mundo que fala a respeito, indica a veracidade da notícia, e confirma para o mundo algo que nós sempre soubemos.

deFEMde repudia movimentação machista na OAB Santana

800 450 Rede Feminista de Juristas

Fomos hoje surpreendidas com a notícia de que foi criada na subseção de Santana da OAB-SP, local que já tem um histórico problemático com inúmeras pautas raciais, de gênero, LGBTQIAP+ e Direitos Humanos em geral, uma comissão destinada a “cuidados com a família brasileira”, dentre outras finalidades.

Esta comissão já foi criada num contexto de violência: é uma resposta direta à existência da Comissão da Mulher Advogada, sob pretexto de que tal comissão é em si, uma segregação. Além disso, há notícia de violência institucional cometida contra as lideranças da Comissão da Mulher Advogada naquela subseção para forçar a admissão de pautas por parte do grupo que idealizou a criação dessa Comissão de Homens Advogados, algo que para nós parece a oficialização de um Clube Redpill dentro da entidade sob pretexto de combate à violência.

A Rede Feminista de Juristas é composta de forma maciça por advogadas e advogades, que dependem de uma entidade de classe ativa e combativa nas inúmeras violências sofridas pela advocacia no exercício de sua profissão; essas violências são ainda mais problemáticas no recorte de gênero e raça. E saber que este órgão colabora para agravar a violência de gênero na advocacia é um duro golpe para nós.

Em 2021, apoiamos publicamente uma chapa eleitoral que se erguia na igualdade de gênero e raça, e tinha real compromisso com a representatividade feminina, negra, indígena, LGBTQIAP+, idosa e PCD na Advocacia. Uma chapa que JAMAIS permitiria uma ofensa dessas às mulheres advogadas da subseção de Santana e do estado de São Paulo.

O que esperamos é que a OAB-SP aja rapidamente e siga como Dora e Zara seguiriam: respeitando todas as vozes, sem permitir violências institucionais desse porte.